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Archive for the ‘Pediatria Radical’ Category

Texto: Dra. Relva
05/07/2005

bullying

Segundo o Cambrige Dictionary, “bulliyng” quer dizer “maltratar ou ameaçar alguém menor ou menos poderoso, forçando-o a fazer algo que não quer”. A tradução poderia ser “assédio”: assédio físico, assédio sexual, assédio moral. O bullying vem-se tornando prática cada vez mais freqüente em escolas, públicas ou particulares. As ações são dirigidas a qualquer um que seja “diferente” – gordinho, magrelo, nerd.

As ações são violentas e humilhantes, e de vez em quando atingem graus extremos, como as que vemos acontecer nos Estados Unidos, com uso de armas, e que deram lugar a filmes como Tiros em Columbine. As conseqüências são deletérias para a pessoa e a personalidade, ocasionando medo de ir à escola, vergonha, depressão, vontade de morrer. E um grande sentimento de impotência.

Na vida diária há outros tipos de “bullying”, configurados pelo uso do poder para conseguir favores sexuais ou pecuniários. Está em curso também – com sérias conseqüências – o assédio moral nas empresas e repartições. Assume desde formas veladas, como o boato, até níveis mais altos de desmoralização perante os colegas e o público.

Há três coisas sem volta: a palavra proferida, a flecha disparada, o tempo perdido. E a reputação. No caso do assédio moral, resta ainda ao humilhado e ofendido o ônus da prova, só que não encontrará testemunha contra a chefia. Não dispomos mais da presença de um Sócrates para indagar: é necessário? é útil? prejudica alguém?

As escolas têm reforçado a vigilância, outras promovem debates entre os alunos – são medidas paliativas. O que propicia tal comportamento é a perda vigente dos limites e o materialismo exacerbado, que não levam em consideração o outro. Enchemos nossos filhos de coisas, mas não lhes ensinamos solidariedade; estimulamos a competição para que obtenham satisfação plena dos desejos; e porque só pensamos em NOSSOS filhos e nunca nas outras crianças.

“Pensar enlouquece”, como se sabe…então, preferimos atacar os sintomas e não falar nas causas. A banalização do grande e do pequeno mal não mais preocupa – as coisas são assim, ou, como diz amigo meu, as coisas estão como elas querem. Pesquisadores de Harvard têm-se debruçado sobre a leniência dos pais para com a agressividade dos filhos e até o medo que têm deles. Filhos sem limites vão buscar na droga, no álcool, na anorexia, um modo de cancelar a realidade.

Para Tales Ab’ Saber, autor de “O sonho restaurado”, uma noite profunda caiu sobre nós: já não conhecemos nenhum valor que não passe pelas quantidades e pelo dinheiro. Depois, vamos todos marchar pela Paz. Pais, mestres, nós, todos, inquietemo-nos de não nos inquietar.

bully7

A FORMA ESCOLAR DA TORTURA
Rubem Alves

Eu fui vítima dele. Por causa dele, odiei a escola. Nas minhas caminhadas passadas, eu o via diariamente. Naquela adolescente gorda de rosto inexpressivo que caminhava olhando para o chão. E naquela outra, magricela, sem seios, desengonçada, que ia sozinha para a escola. Havia grupos de meninos e meninas que iam alegremente, tagarelando, se exibindo, pelo mesmo caminho. Mas eles não convidavam nem a gorda nem a magricela. “Bullying” é o nome dele.

Dediquei-me a escrever sobre os sofrimentos a que crianças e adolescentes são submetidos em virtude dos absurdos das práticas escolares, mas nunca pensei sobre as dores que alunos infligem a colegas seus. Talvez eu preferisse ficar na ilusão de que todos os jovens são vítimas. Não são. Crianças e adolescentes podem ser cruéis.

“Bullying” Fica o nome em inglês porque não se encontrou palavra em nossa língua que seja capaz de dizer o que “bullying” diz. “Bully” é o valentão: um menino que, por sua força e sua alma deformada pelo sadismo, tem prazer em bater nos mais fracos e intimidá-los.

Vez por outra, crianças e adolescentes têm desentendimentos e brigam. São brigas que têm uma razão. São acidentes. Acontecem e pronto. Não é possível fazer uma sociologia dessas brigas. Depois delas, os briguentos podem fazer as pazes e se tornar amigos de novo. Isso nada tem a ver com “bullying”. No “bullying”, um indivíduo – o valentão – ou um grupo escolhe a vítima que vai ser seu “saco de pancadas”. A razão? Nenhuma. Sadismo. Eles “não vão com a cara” da vítima. É preciso que a vítima seja fraca, que não saiba se defender. Se ela fosse forte e soubesse se defender, a brincadeira não teria graça.

A vítima é uma peteca: todos batem nela e ela vai de um lado para outro sem reagir. Pode-se fazer uma sociologia do “bullying” porque ele envolve muitas pessoas e tem continuidade no tempo. A cada novo dia, ao se preparar para a escola, a vítima sabe o que a aguarda.

Até agora, tenho usado o artigo masculino, mas o “bullying” não é monopólio dos meninos. As meninas também usam outros tipos de força que não a dos punhos. E o terrível é que a vítima sabe que não há jeito de fugir. Ela não conta aos pais, por vergonha e medo. Não conta aos professores porque sabe que isso só poderá tornar ainda pior a violência dos colegas. Ela está condenada à solidão. E ao medo acrescenta-se o ódio.

A vítima sonha com vingança. Deseja que seus algozes morram. Vez por outra, ela toma providências para ver seu sonho realizado. As armas podem torná-la forte. Na maioria dos casos, o “bullying” não se manifesta por meio de agressão física, mas por meio de agressão verbal e de atitudes. Isolamento, caçoada, apelidos.

Aprendemos com os animais. Um ratinho preso numa gaiola absorve a informação rapidamente. Uma alavanca lhe dá comida. Outra alavanca produz choques. Depois de dois choques, o ratinho não mais tocará a alavanca que produz choques. Mas tocará a alavanca da comida sempre que tiver fome. As experiências de dor produzem afastamento. O ratinho continuará a não tocar a alavanca que produz choque ainda que os psicólogos que fazem o experimento tenham desligado o choque e tenham ligado a alavanca à comida.

Experiências de dor bloqueiam o desejo de explorar. O fato é que o mundo do ratinho ficou ordenado. Ele sabe o que fazer. Imaginem, agora, que uns psicólogos sádicos resolvam submeter o ratinho a uma experiência de horror: ele levará choques em lugares e momentos imprevistos ainda que não toque em nada. O ratinho está perdido. Ele não tem formas de organizar o seu mundo. Não há nada que ele possa fazer. Seus desejos, imagino, seriam dois. Primeiro: destruir a gaiola, se pudesse, e fugir. Isso não sendo possível, ele optaria pelo suicídio.

Edimar era um jovem tímido de 18 anos que vivia na cidade de Taiúva, no Estado de São Paulo. Seus colegas fizeram-no motivo de chacota porque ele era muito gordo. Puseram-lhe os apelidos de “gordo”, “mongolóide”, “elefante cor-de-rosa” e “vinagrão”, por tomar vinagre de maçã todos os dias, no seu esforço para emagrecer. No dia 27 de janeiro de 2003, ele entrou na escola armado e atirou contra seis alunos, uma professora e o zelador, matando-se a seguir.

Luis Antônio era um garoto de 11 anos. Mudando-se de Natal para Recife por causa do seu sotaque, passou a ser objeto da violência de colegas. Batiam nele, empurravam-no, davam-lhe murros e chutes. Na manhã do dia fatídico, antes do início das aulas, apanhou de alguns meninos que o ameaçaram com a “hora da saída”. Por volta das 10h30, saiu correndo da escola e nunca mais foi visto. Um corpo com características semelhantes ao dele, em estado de putrefação, foi conduzido ao IML (Instituto Médico Legal) para perícia.

Achei que seria próprio falar sobre o “bullying” na seqüência do meu artigo sobre o tato que se iniciou com: “O tato é o sentido que marca, no corpo, a divisa entre os deuses Eros, do amor, e Tânatos, da morte. É por meio do tato que o amor se realiza. É no lugar do tato que a tortura acontece”. O “bullying” é a forma escolar da tortura.

Parto do Principio


Nós apoiamos essa idéia!

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIAS

Por uma nova forma de gestar, parir e nascer!

De 11 a 17 de maio diversos países estarão comemorando a Semana Mundial pelo Respeito ao Nascimento (SMRN). Para marcar a data no Brasil, a Rede Parto do Princípio (www.partodoprincipio.com.br) realiza uma exposição nacional com fotos em preto e branco de mulheres brasileiras no momento do nascimento de seus filhos. A exposição acontece simultaneamente em várias cidades do país e tem como objetivo incentivar o vínculo afetivo entre mãe e filho, a amamentação na primeira hora de vida e o parto humanizado. Em alguns municípios a exposição começa mais cedo, em comemoração ao Dia das Mães ou estende-se por mais tempo. (Confira abaixo a relação de locais e datas).

A Semana Mundial pelo Respeito ao Nascimento (www.smar.info ), iniciativa da Associação Francófona pelo Parto Respeitoso (“Alliance Francophone pour l’Accouchement Respecté” – http://www.afar.info) é celebrada anualmente, desde 2004, durante o mês de maio em diversos países.

Este ano, a campanha aborda O aumento da taxa de cesarianas no mundo com o slogan Diga não à cesárea desnecessária!

A Parto do Princípio é uma rede de mulheres, consumidoras e usuárias do sistema de saúde brasileiro, que oferece informações sobre gestação, parto e nascimento baseadas em evidências científicas e recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS). Conta hoje com mais de 300 pessoas trabalhando voluntariamente, em 16 estados e no Distrito Federal, na divulgação dos benefícios do parto ativo.

Para a Parto do Princípio, a Semana Mundial pelo Respeito ao Nascimento é uma ocasião para reafirmar publicamente que a reprodução humana é um fato social em primeiro lugar; que a mudança é possível e que nunca é tarde para que os profissionais e os estabelecimentos médicos revejam suas práticas.

Para a realização da Exposição, a Rede contou com o apoio do Guia do Bebê (www.guiadobebe.com.br).

Os riscos da cesariana

No Brasil, 79,7% dos partos no setor privado¹ são cesarianas, em sua maioria eletivas – realizadas antes do trabalho de parto – o que claramente revela o desconhecimento da população acerca dos riscos intrínsecos à realização desta cirurgia.

Mesmo no setor público, as taxas 27,5% de cesariana atingem praticamente o dobro do recomendado pela Organização Mundial de Saúde, que é de 15%. Entretanto, este excesso de cirurgias cesarianas não reflete em melhores resultados maternos e neonatais, visto que o Brasil, desde a inclusão da “cultura da cesárea” não apresenta redução nos seus altos índices de mortalidade materna (75 mulheres a cada 100 mil nascido vivos), segundo a conceituação da OMS (que aceita um índice de 20 mortes maternas a cada 100 mil nascidos vivos).

É necessário que a sociedade se mobilize divulgando ações e disseminando informações acerca deste tema, para que nossas mulheres e crianças não sejam submetidas a riscos aumentados – na maioria das vezes, desnecessários – em um momento que deveria ser de tranquilidade, intimidade e segurança.

ALGUNS RISCOS DA CESARIANA

Para a Mãe

* Maior risco de Morte Materna em decorrência da cirurgia (2,8% maior na cesariana eletiva quando comparada ao parto vaginal)
* Maior risco de Histerectomia – retirada dos órgãos reprodutivos
* Maior probabilidade de Internação Prolongada
* Maior chance de desenvolver Infecção
* Risco aumentado de Depressão Pós-Parto
* Dor generalizada ou no local da cirurgia
* Risco de criação de Coágulos Sanguíneos e Trombose
* Corte Cirúrgico Acidental em outros órgãos
* Obstrução Intestinal

Para o Bebê

* Contato Tardio com a mãe
* Corte Cirúrgico acidental
* Maior probabilidade de Fracasso no Aleitamento Materno
* Maior dificuldade para estabelecer o Vínculo Afetivo
* Desconforto Respiratório por iatrogenia – interferência médica no processo natural
* Maior possibilidade de desenvolver Asma

Para Gestações Futuras

* Aumento das taxas de Infertilidade
* Maior possibilidade de Gravidez Ectópica
* Maior possibilidade de Placenta Prévia
* Riscos aumentados de Ruptura Uterina
* Dor abdominal decorrente de Aderências – outros órgãos aderem à cicatriz cirúrgica
* Descolamento Prematuro de placenta

Veja abaixo os locais das exposições já confirmadas:

Bauru – SP
Contato: Celma – (14) 3011-0077 celmapsid@ig.com.br
SENAC – a partir de 13 de maio

Belém – PA
Contato: Thayssa (91) 8884.0209 – thayssa.rocha@partodoprincipio.com.br
Laboratório Beneficente de Belém http://www.lbb.com.br – de 11 a 16 de maio (exposição de fotos)
Restaurante D. Giuseppe – de 08 a 16 de maio (exposição virtual de fotos)
Praça Batista Campos – 17 de maio (exposição de fotos e caminhada de encerramento às 9h)

Belo Horizonte – MG
Contato: Pollyana (31) 9312-7399- polly@partodoprincipio.com.br
PUC Minas Barreiro – a partir de 12 de maio (exposição de fotos) durante a III Semana da Enfermagem

Brasília – DF
Contato: Clarissa (61) 3201-0069 e 8139-0099 – clarissa@partodoprincipio.com.br
Shopping Páteo Brasil – 09 de maio – conversa com as mulheres sobre riscos das cesarianas
Associação Vivendo e Aprendendo – de 11 a 15 de maio
Centro Cultural de Brasília – 16 e 17 de maio

Curitiba- PR
Contato: Patrícia (41) 3336-1939 e 9113-6364 – patricia@partodoprincipio.com.br
Estúdio MM Áudio – a partir de 09 de maio

Garanhuns – PE
Contato: Juliana (87) 9104-5381 – juliana_coelho_ferra@hotmail.com ou Ilza (87… – ilza_rafa@hotmail.com
Livraria Casa Café – de 11 a 19 de maio

Juiz de Fora – MG
Contato: Soraya (32) 3226-2461 e 8838-3072 – smperobelli@gmail.com Centro de Diagnósticos CEDIMAGEM – de 11 a 17 de maio (exposição de fotos)

Maringá – PR
Contato: Patrícia (44)3025-3219 e 9927-7298 – patimerlin@partodoprincipio.com.br
Cliniprev – de 11 a 17 de maio (exposição de fotos)

Porto Alegre – RS
Contato: Alessandra (51)3028-8728 e 9685-2114 –alessandrakrause@partodoprincipio.com.br e Maria José (51…
Centro Cultural CEEE Érico Veríssimo- http://www.cccev.com.br – de 11 a 16 de maio (Exposição de fotos)
Parque de Redenção – dia 16 de maio – Tenda com exposição de fotos e caminhada com grávidas e mães/pais com filhos.

Rio de Janeiro – RJ
Contato: Denise (21) 2222-6658 e 9797-1602 – denise@partodoprincipio.com.br
Livraria Largo das Letras – de 12 a 17 de maio

São Bernardo do Campo – SP
Contato: Denise (11) 9383-4429 – denise.niy@uol.com.br
Bruxa Banguela Rock Bar – Lançamento do livro Lembranças fecundas: meu diário afetivo da gravidez”, de Denise Yoshie Niy

São Paulo – SP
Contato: Roberta (11) 8208-2119 – roberta@partodoprincipio.com.br
Continental Shopping – de 08 a 27 de maio (exposição de fotos)
Faculdade de Saúde Pública – a partir de 11 de maio (exposição de fotos)

¹ Dados da Agência Nacional de Saúde – 2001.

Sem o céu, ela é um nada
Sem os anjos, um zero
Sem a diligente abelha
Uma flor despetalada.

Sem o vento, uma insignificante.
Sem as borboletas,
Simples gota de orvalho no gramado.

Talvez não passe de ser
A mais humilde mãezinha do pedaço
Mas, tirando-a de lá,
A casa perde a feição
Daquilo a que chamam lar.

Emily Dickinson – Trad. Relva

Flores - Picasso

Hoje, vou contar uma das histórias mais lindas que eu já ouvi.

Em alguma tribo de índios brasileiros (no Brasil, temos 180 nações indígenas. Cada uma tem sua etnia, fala sua própria língua, canta seus próprios cantos), reza a lenda que é um costume ancestral descobrir o som de cada criança que está por vir.

Quando uma índia está prestes a parir, as mulheres mais próximas (irmãs, primas) escolhem uma ocasião para se retirar da aldeia e procurar abrigo na mata. Durante um ritual que dura a noite toda, elas recebem o som da criança que está chegando. Ao nascer do sol, elas voltam à tribo e ensinam para todos a música daquela criança.

Quando a índia da à luz, o bebê é recebido por toda a tribo cantando o seu som, sua música, que é única! Essa cena se repetirá a cada ritual de passagem dela na infância, puberdade, idade adulta. A tribo se reúne e canta para cada um nos momentos mais importantes de sua vida.

Quando um jovem se perde e comete algum ato nocivo à tribo ou a si próprio, os anciãos com sua sabedoria ancestral convocam a tribo para cantar a música daquele jovem na tentativa de lembrá-lo de quem ele realmente é.

Que sofisticação, que delicadeza! Fico impactada com a profundidade do significado dessa história. Certamente, é necessário toda uma tribo para educar uma criança. E a nossa arrogância urbano-intelecto-científica ainda nos faz crer que a sociedade primitiva é a deles! Precisamos buscar nossas raízes tupis e guaranis, aprender com a sabedoria dos povos que já estavam por aqui antes da colonização.

Viver numa grande metrópole em 2009 dá bem a medida do quanto a civilização não anda nada civilizada.

Outro costume indígena que me fascina diz respeito à relação que os índios têm com os sonhos. Sonhar é tão fundamental para eles que, em algumas tribos, mudanças geográficas, por exemplo, só podem ocorrer depois que o Pajé tiver sonhado com elas.

Os índios alcançaram, por meio dos sonhos, um nível de diálogo com o inconsciente incrível. Eles acreditam neles, concedem aos sonhos importância igual ou maior do que a dada aos fatos que ocorrem no período de alerta e, o principal, conseguem integrar as informações tiradas dos sonhos em sua realidade diária.

Ai como eu gostaria de cantar a música das minhas crianças e, mais ainda, de poder contar com o apoio de toda a tribo para educá-las da melhor maneira. Passar para elas uma forte noção de grupo e iniciá-las nos mistérios da boa conduta… Parece sonho!

O som e o sonho de cada um – Maria Paula

correioweb de 03.05.09

Por que Deus permite que as mães vão se embora?
Mãe não tem limite.
É tempo sem hora,
luz que não apaga quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido na pele enrugada.
água pura, ar puro, puro pensamento.

Morrer, acontece com o que é breve
e passa sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é a eternidade.
Por que Deus se lembra (mistério profundo)
de tirá-la um dia?…
Fosse eu rei do mundo,
baixava uma lei:
“Mãe, não morre nunca.
Mãe ficará sempre junto de seu filho.
E ele, velho embora,
Será pequenino feito grão de milho”

Carlos Drummond de Andrade – Para Sempre

flores

Mãe…São três letras apenas
As desse nome bendito:
Também o céu tem três letras
E nelas cabe o infinito

Para louvar a nossa mãe,
Todo bem que se disser
Nunca há de ser tão grande
Como o bem que ela nos quer

Palavra tão pequenina,
Bem sabem os lábios meus
Que és do tamanho do CÉU
E apenas menor que Deus!

Mário Quintana

flores

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Tenho medo da vida, minha mãe.
Canta a doce cantiga que cantavas
Quando eu corria doido ao teu regaço
Com medo dos fantasmas do telhado.
Nina o meu sono cheio de inquietude
Batendo de levinho no meu braço
Que estou com muito medo, minha mãe.
Repousa a luz amiga dos teus olhos
Nos meus olhos sem luz e sem repouso
Dize à dor que me espera eternamente
Para ir embora. Expulsa a angústia imensa
Do meu ser que não quer e que não pode
Dá-me um beijo na fonte dolorida
Que ela arde de febre, minha mãe.

Aninha-me em teu colo como outrora
Dize-me bem baixo assim: — Filho, não temas
Dorme em sossego, que tua mãe não dorme.
Dorme. Os que de há muito te esperavam
Cansados já se foram para longe.
Perto de ti está tua mãezinha
Teu irmão. que o estudo adormeceu
Tuas irmãs pisando de levinho
Para não despertar o sono teu.
Dorme, meu filho, dorme no meu peito
Sonha a felicidade. Velo eu

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Me apavora a renúncia. Dize que eu fique
Afugenta este espaço que me prende
Afugenta o infinito que me chama
Que eu estou com muito medo, minha mãe.,

Vinicius de Moraes – Poesia completa e prosa

flores

Natureza – é das Mães a mais bondosa,
Com Filho algum, impaciente –
Seja o mais frágil ou o mais indócil –
Admoesta suavemente.

No Bosque – e também na Colina –
É pelos Viajantes ouvida,
Ao refrear o Esquilo afoito,
Ou do Pássaro a arremetida.

Agradável é a sua Conversa
Que a Tarde de Verão embala –
Os que A cercam, Seus convivas –
E, por fim, quando o Sol resvala –

Entre as Aléias a Sua Voz
À tímida oração convida
Não só o minúsculo Grilo,
Mas a Flor mais desenxabida.

Quando todos estão dormindo
Ela se afasta o suficiente
Para acender as suas Lâmpadas –
E do Céu, então, pendente –

Com uma Afeição infinita
E desvelo ainda maior –
O Dedo de Ouro aos lábios –
Silêncio ordena – em derredor.

Emily Dickinson – Tradução Lúcia Olinto

flores

Teus filhos não são teus filhos,
São filhos e filhas da vida,
Desejosa de si mesma.
Não vem de ti mas através de ti.
E, embora estejam contigo,
não te pertencem.
Podes dar-lhes teu amor
Mas não teus pensamentos,
Pois eles têm os
próprios pensamentos.
Podes abrigar seus corpos
Mas não suas almas, porque elas
Vivem na casa do amanhã,
Que não podes visitar
Nem sequer em sonhos.
Podes esforçar-te em ser
como eles,
Mas não procure fazê-los
Semelhantes a ti.
Porque a vida não retrocede,
Nem se detém no ontem.
Tu és o arco do qual teus filhos,
Como flechas vivas, são lançados.
Deixa que a inclinação em
tua mão de arqueiro
seja para a alegria…

Gibran Khalil Gibran

Crescemos, mas não nos livramos do incômodo de ter sempre alguma coisa que, no fundo, tentamos ignorar. E quanto mais escondida a verdade, maior a neurose. Descobrir os traumas, entender o sentimento de abandono que nos persegue ao deixarmos a infância ou a repressão a que normalmente somos submetidos não é fácil. Mais natural é tentar proteger a imagem que construímos dos nossos pais e resistir aos fatos que não correspondem aos nossos desejos. Não é mole!

Mas, se não estivermos dispostos a iniciar essa viagem interna, dificilmente vamos amadurecer. A maternidade exige esse tipo de esforço. Para assumir plenamente essa função, é preciso libertar-se das fantasias que criamos e que, de tanto repeti-las, acabamos incorporando à nossa história. Romper com esse mundo de ficção é o primeiro passo para entendermos que cada escolha, cada ato determina não só o nosso futuro, mas o de nossos filhos, netos… Sabe-se lá quantas gerações serão afetadas por nossos passos. Exemplo: disponível para minha filha, facilito a possibilidade de ela estar disponível para seus próprios filhos. Afinal, nosso repertório vem do que aprendemos. Uma mãe carinhosa forma outra mãe carinhosa e assim por diante. É claro que nosso passado é determinante em nossas vidas, e a maior possibilidade que temos de superar as dificuldades é jogando a luz da consciência nele.

Por isso escolhi esse título: a verdade liberta! Realmente só nos tornamos livres de nossos fantasmas se pudermos olhar para eles e desconstruí-los. A grande vantagem do tempo é permitir tantas mudanças. A cada momento, temos a oportunidade de deixarmos de ser quem éramos para nos tornar quem somos! Revisto e resolvido o passado, podemos compreender que na vida só o presente existe de fato, que este é o tempo certo para mudarmos o rumo e nos prepararmos para chegar aonde queremos. Culpar os pais ou as circunstâncias por nossos fracassos de nada adianta. A transformação é possível e só depende de nós (e se houver a ajuda de um analista, então, melhor ainda…)

Maria Paula
Correio Braziliense

A mãe que dá ao filho tudo o que possui não é generosa, ou não precisa sê-lo: ela ama o filho mais que a vida. A mãe que perdoa tudo ao filho, que o aceita como ele é, não obstante o que ele tenha feito, o que ele faça, não é misericordiosa:  ela ama o filho mais que a justiça ou o bem. Poderíamos tomar outros exemplos, em particular na vida dos santos ou de Jesus. Mas seriam quase todos historicamente discutíveis ou de difícil interpretação. Cristo existiu mesmo? O que viveu? Em que medida os santos são santos? O que poderíamos saber de suas intenções, de suas motivações, de seus sentimentos? Lendas demais aqui, distância demais.

O amor dos pais, em especial das mães, é ao mesmo tempo mais próximo, mais manifesto, e igualmente exemplar. Se há lenda, como em toda parte, pelo menos podemos confrontá-la com um real observável. Ora, o que vemos? Que as mães, em relação a seus filhos, possuem a maioria das virtudes que geralmente nos faltam (e que lhes faltam), ou antes, que o amor nelas toma o lugar das virtudes, quase sempre, e as liberta – pois essas virtudes só são moralmente necessárias, quase todas, por falta de amor. O que há de mais fiel, de mais prudente, de mais corajoso, de mais misericordioso, de mais doce, de mais sincero, de mais simples, de mais puro, de mais compassivo, de mais justo (sim, mais que a própria justiça!) do que esse amor? Não é sempre assim? Eu sei: também há a loucura das mães, a histeria das mães, a possessividade das mães, sua ambivalência, seu orgulho, sua violência, seu ciúme, sua angústia, sua tristeza, seu narcisismo… Sim. Mas o amor quase sempre intervém nisso, o amor que não anula o resto mas que o resto não anula. Há apenas indivíduos: vi mães admiráveis, outras insuportáveis, outras ainda que eram ora uma coisa, ora outra, quando não as duas ao mesmo tempo… Quem não vê, porém, que não há outro domínio, em toda a história da humanidade, onde o que é se aproxima tão freqüentemente do que deveria ser, a ponto, às vezes, de alcançá-lo, a ponto até de superar tudo o que não se ousaria legitimamente esperar, pedir, exigir?

O amor incondicional só existe aí, sem dúvida, mas existe às vezes: é o amor da mãe, o amor do pai, por esse deus mortal que geraram, e não criaram, por esse filho do homem (por essa filha do homem) que uma mulher trouxe em seu ventre…

Uma virtude? Claro, pois é uma disposição, uma potência, uma excelência! “Potência de humildade”, dizia eu das virtudes, e nenhuma é mais decisiva do que essa disposição para amar, do que essa potência de amar, do que essa excelência de amar, nos pais, pela qual a animalidade em nós se abre para outra coisa que não ela mesma, e que podemos chamar de espírito ou de Deus, mas cujo verdadeiro nome é amor, e que faz da humanidade, não de uma vez por todas, mas a cada geração, mas a cada nascimento, mas a cada infância, outra coisa que não uma espécie biológica.

Esse amor permanece, porém, prisioneiro de si mesmo, e de nós.

Por que amamos tanto nossos filhos, e tão pouco os dos outros?

É porque são nossos e porque nos amamos através deles.

André Comte-Sponville


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