Blog da PR

Amor Incondicional

Posted on: maio 4, 2009

A mãe que dá ao filho tudo o que possui não é generosa, ou não precisa sê-lo: ela ama o filho mais que a vida. A mãe que perdoa tudo ao filho, que o aceita como ele é, não obstante o que ele tenha feito, o que ele faça, não é misericordiosa:  ela ama o filho mais que a justiça ou o bem. Poderíamos tomar outros exemplos, em particular na vida dos santos ou de Jesus. Mas seriam quase todos historicamente discutíveis ou de difícil interpretação. Cristo existiu mesmo? O que viveu? Em que medida os santos são santos? O que poderíamos saber de suas intenções, de suas motivações, de seus sentimentos? Lendas demais aqui, distância demais.

O amor dos pais, em especial das mães, é ao mesmo tempo mais próximo, mais manifesto, e igualmente exemplar. Se há lenda, como em toda parte, pelo menos podemos confrontá-la com um real observável. Ora, o que vemos? Que as mães, em relação a seus filhos, possuem a maioria das virtudes que geralmente nos faltam (e que lhes faltam), ou antes, que o amor nelas toma o lugar das virtudes, quase sempre, e as liberta – pois essas virtudes só são moralmente necessárias, quase todas, por falta de amor. O que há de mais fiel, de mais prudente, de mais corajoso, de mais misericordioso, de mais doce, de mais sincero, de mais simples, de mais puro, de mais compassivo, de mais justo (sim, mais que a própria justiça!) do que esse amor? Não é sempre assim? Eu sei: também há a loucura das mães, a histeria das mães, a possessividade das mães, sua ambivalência, seu orgulho, sua violência, seu ciúme, sua angústia, sua tristeza, seu narcisismo… Sim. Mas o amor quase sempre intervém nisso, o amor que não anula o resto mas que o resto não anula. Há apenas indivíduos: vi mães admiráveis, outras insuportáveis, outras ainda que eram ora uma coisa, ora outra, quando não as duas ao mesmo tempo… Quem não vê, porém, que não há outro domínio, em toda a história da humanidade, onde o que é se aproxima tão freqüentemente do que deveria ser, a ponto, às vezes, de alcançá-lo, a ponto até de superar tudo o que não se ousaria legitimamente esperar, pedir, exigir?

O amor incondicional só existe aí, sem dúvida, mas existe às vezes: é o amor da mãe, o amor do pai, por esse deus mortal que geraram, e não criaram, por esse filho do homem (por essa filha do homem) que uma mulher trouxe em seu ventre…

Uma virtude? Claro, pois é uma disposição, uma potência, uma excelência! “Potência de humildade”, dizia eu das virtudes, e nenhuma é mais decisiva do que essa disposição para amar, do que essa potência de amar, do que essa excelência de amar, nos pais, pela qual a animalidade em nós se abre para outra coisa que não ela mesma, e que podemos chamar de espírito ou de Deus, mas cujo verdadeiro nome é amor, e que faz da humanidade, não de uma vez por todas, mas a cada geração, mas a cada nascimento, mas a cada infância, outra coisa que não uma espécie biológica.

Esse amor permanece, porém, prisioneiro de si mesmo, e de nós.

Por que amamos tanto nossos filhos, e tão pouco os dos outros?

É porque são nossos e porque nos amamos através deles.

André Comte-Sponville

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